EU SEI EM QUEM TENHO CRIDO
Pr Luciano R. Peterlevitz – PIBS, 27/07/2025 (noite)
TEXTO: 2Timóteo 1.12: “e, por isso, estou sofrendo estas coisas. Mas não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar aquilo que me foi confiado até aquele Dia.”
Introdução
Lemos aqui em 2Tm 1.12 uma declaração de fé do apóstolo Paulo, proferida nos seus últimos dias de vida nesta terra, no ano 64 d.C., em uma prisão em Roma. No final da sua vida, apesar de estar preso por causa do evangelho, sentindo-se abandonado por alguns dos seus amigos (2Tm 4.16), o velho apóstolo manteve sua fidelidade a Cristo, e podia dizer: “guardei a fé” (2Tm 4.7).
Voltaremos nossos olhos para 2Tm 1.12, com o propósito de entender a declaração de fé expressa aqui por Paulo. Vejamos:
É uma declaração proferida em meio ao sofrimento
“estou sofrendo estas coisas. Mas não me envergonho…”. Quando Paulo se converteu, o Senhor disse que eleseria um instrumento escolhido para levar o nome de Cristo aos gentios, aos reis e aos filhos de Israel, e o próprio Cristo iria mostrar para ele o quanto deveria sofrer pelo evangelho (At 9.15-16).
E, no final de sua vida, ovelho apóstolo não se envergonhava das suas prisões, e também convoca o jovem pastor Timóteo para participar dos seus sofrimentos a favor do evangelho (veja 2Tm 1.8).
Portanto, aqui em 2Tm 1.12, a declaração de fé de Paulo foi proferida num contexto de sofrimento. Ah como é difícil confiar em Deus em meio às adversidades, não é mesmo!?
O fundamental é mantermos nossa fidelidade à Palavra, ainda que venhamos a sofrer (At 20.22-24).
“Ninguém consegue pregar com fidelidade o Cristo crucificado sem sofrer oposição, ou até mesmo perseguição.” (John Stott). Isso porque a mensagem da cruz inevitavelmente atrairá o ódio do mundo. O homem natural (perdido) não aceita as coisas do Espírito. E lamentavelmente muitos pregadores hoje adulteram o evangelho “somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” (Gl6.12).
E nós, temos vergonha do evangelho da cruz ou nos gloriamos nele?
“Não me envergonho do evangelho, que é o poder de Deus para salvar…” (Rm 1.16). Podemos dizer e viver essas palavras?
Que as palavras de Cristo sejam fincadas em nosso coração: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos.” (Lc 9.26).
É uma declaração que expressa uma certeza
Notemos bem as palavras de Paulo: “porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso”. Não lemos aqui um achismo, mas sim uma certeza absoluta e inalável: “sei…estou certo…”. Fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem (Hb 11.1).
A fé é uma certeza que não depende dos nossos sentimentos. O que faz a diferença não é o que eu sinto, mas o que eu sei. É claro que todos nós temos sentimentos de angústia (tristeza, abatimento da alma, etc.). Isso é normal, afinal somos vaso de barro. Mas não podemos ser controlados por nossas emoções. Veja: 2 + 2= 4. Esta fórmula matemática não se altera jamais, esteja eu feliz ou não, faça chuva ou faça sol. Do mesmo modo, a nossa afirmação de fé nunca muda: Deus é confiável independente de qualquer situação e independente dos meus sentimentos.
É uma declaração fundamentada no conhecimento que temos de Cristo
“eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.”
Em última instância, a fé cristã não está fundamentada em algo, mas em Alguém. O “quem”, aqui, é a Pessoa de Cristo (o “nosso Salvador Cristo Jesus”, v.9). O evangelho é Cristo (veja v.9-11).
Em que se baseava a confiança de Paulo? Somente numa coisa: “eu o conheço”, dizia o apóstolo. Ele sabia muito bem quem é Cristo, em quem confiava (“ele é poderoso”) e estava convencido da capacidade Dele para manter o bom tesouro em segurança.
Para crer em Cristo é fundamental conhecê-Lo. Você conhece o Deus em quem crê ou adora o “Deus desconhecido”, como os antigos atenienses (At 17.23)?
Salmo 9.10: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparasos que te buscam.”
Como dizia o antigo slogan da Volkswagen: “Você conhece. Você confia.” Quanto mais conhecemos o Senhor, mais podemos ter certeza de que podemos confiar Nele.
Para confiarmos no Senhor precisamos crer nas verdades essenciais sobre Deus conforme ensinadas nas Escrituras. Destacamos aqui pelo menos três dessas verdades:
Deus é completamente soberano,
Deus é infinito em sabedoria,
Deus é perfeito em amor.
Alguém já disse:
“Deus, em seu amor, sempre deseja o que é melhor para nós. Em sua sabedoria, ele sempre sabe o que é melhor, e em sua soberania ele tem o poder de fazer isso acontecer.”
Conhecer Deus “é mais do que simplesmente conhecer os fatos a respeito de Deus. É envolver-se um relacionamento pessoal mais profundo com ele, como resultado de buscá-lo em meio ao sofrimento pessoal e descobrir que ele é digno de confiança. Somente quando conhecermos a Deus dessa maneira pessoal é que seremos capazes de confiar nele (Jerry Bridges,Confiando em Deus mesmo quando a vida nos golpeia, aflige e fere, São Paulo: NUTRA, 2013, p. 26).
Repito a pergunta: “Você conhece o Deus em quem você crê?”
É uma declaração que afirma que Deus guardará o tesouro da fé
“e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.” O “depósito” (gr. parathḗkē) é “aquilo que me foi confiado” (NAA); o termo grego aqui significa “algo valioso confiado ao cuidado de alguém”. A mesma palavra ocorre no v.14 e em 1Tm 6.20.
O “depósito” (v.12), o “bom depósito” (v.14; NAA: “bom tesouro”) é o evangelho, a fé apostólica. Veja 1Timóteo 6.20-21.São as “sãs palavras” que Paulo ensinou a Timóteo (v.13). É o “bom tesouro” (v.14) depositado em custódia na igreja. Cristo o entregou a Paulo; e Paulo, por sua vez, o entregou a Timóteo.
O tesouro do evangelho foi-nos confiado por Deus e é guardado por Deus (v.12), e também cabe a nós guardá-lo (v.14; 1Tm 6.20).
Há ladrões que almejam saquear esse depósito. Hereges querem corromper o belo tesouro do evangelho. Precisamos guardá-lo com zelo. O mundo e satanás querem tirar nossa atenção da verdade revelada por Deus para guiar a nossa vida. Tomemos cuidado!
“Timóteo não pode pensar em guardar o tesouro do evangelho com força própria; somente poderá fazê-lo ‘mediante o Espírito Santo que habita em nós’ (v.14).” (Stott). É o próprio Deus que mantém o tesouro do evangelho intacto (V.12: “e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.”
*Guardamos o nosso dinheiro (quando temos!) no banco, porque acreditamos que ali é um lugar seguro (mesmo assim, estamos sujeitos a golpes!). É nosso dever cuidar do nosso dinheiro, administrá-lo de forma sensata, e cabe ao banco guardá-lo em segurança.
Semelhantemente, é nossa responsabilidade guardar a fé, mas, por outro lado, precisamos entender que é o próprio Deus que conservará intacta a nossa fé até o dia final. Judas 24: “E ao Deus que é poderoso para evitar que vocês tropecem e que pode apresentá-los irrepreensíveis diante da sua glória, com grande alegria”.
Vela a pena refletirmos nessas palavras de John Stott:
Podemos ver a fé evangélica encontrando oposição em toda parte, e a mensagem apostólica sendo ridicularizada. Talvez vejamos uma crescente apostasia crescer na igreja, muitos de nossa geração abandonando a fé de seus pais. Mas não temos nada a temer! Deus nunca permitirá que a luz do evangelho se apague. É verdade que ele o confiou a nós, frágeis e falíveis criaturas. Ele colocou o seu tesouro em frágeis vasos de barro, e nós devemos assumir a nossa parte na guarda e na defesa da verdade. Contudo, mesmo tendo entregue o depósito aos cuidados de nossas mãos, Deus não retirou as suas mãos desse depósito. Ele mesmo é, afinal, o seu melhor vigia; ele saberá preservar a verdade que confiou à Igreja. Isto nós sabemos, porque sabemos em quem depositamos a nossa confiança, e em quem continuamos a confiar.
Qual é nossa responsabilidade em relação ao evangelho? “Guardá-lo fielmente. Difundi-lo ativamente. Sofrer corajosamente por ele.” (Stott). Que Deus nos ajude, para isso.
Que a nossa fé se mantenha e se fortaleça em meio aos sofrimentos; que, nos tempos de incertezas, ela seja uma certeza inabalável; que ela amadureça cada vez mais na medida em que conhecemos mais e mais o Senhor.
Guardemos a fé, na certeza de que o próprio Espírito nos ajudará a conservar esse bom tesouro até o Dia final.
